AS VITRINES DA IMAGINAÇÃO - BVIW
Numa época em que a inocência era autêntica, e não lucrativa, servindo apenas para entretenimento da família, vivia Antônio, o Toninho. Menino esperto, de três anos, com olhos graúdos e atentos a tudo o que conseguia ver.
Toninho adorava sair com os pais. Fosse para um passeio, para a escolinha, para ao mercado ou para a igreja. Ia ele observando tudo. Gostava de parar em frente à vitrine, cuja loja vendia manequins, e ficava reparando nos detalhes. Não era nas roupas que ele fixava o olhar, mas nos bonecos e nos seus acessórios. Ficava intrigado e dizia para mãe que os bonecos estavam vivos, porque ora estavam com mão para cima, ora com a mão no bolso. Dona Ana ria e explicava que as atendentes da loja é que arrumavam conforme a moda exigia. Na cabeça do Toninho, eles criavam vida quando não havia alguém espiando, e nem adiantava os esclarecimentos da mãe. Alguns dias, a criança notava que sumia um modelo, a mãe novamente explicava que havia sido vendido. O menino se entristecia quando isso acontecia.
Durante o percurso até a escolinha maternal, entre os comércios locais, havia o Lar dos Idosos com uma extensa janela de vidro, por onde se via muitos velhinhos observando o movimento da rua. Tonhinho dizia que a vitrine de velhinhos era a que ele mais gostava! Tinha o careca, o de chapéu engraçado, o que usava óculos vermelhos, o que segurava um livro, o que vivia com a cara sempre zangada. E tinha o que chamava mais atenção, porque sempre que via a criança, acenava. Recebendo de volta o sorriso inocente do Toninho com um tchauzinho.
Certa vez, ao retornar das férias, o menino reparou que faltava um idoso no lugar habitual, com a sua pureza disse:
- Mamãe, compraram o vovô de óculos coloridos!
Dona Ana preferiu deixar essa imagem na mente do filho para que não se entristecesse em saber que o ancião havia falecido.
Tema proposto pelo BVIW - "Vitrines".
(BVIW - BECOMING VERY IMPORTANTE WRITER/ "Tornando-se um escritor muito importante."
Imagem criada AIleonado