DUAS ALMAS TRANSCENDENTES - BVIW
No tempo em que os quintais eram extensos e janelas e portas permaneciam abertas até tarde da noite, a liberdade corrida solta por cada cômodo da casa. Ali moravam Beto e Mariazinha, muito queridos pela vizinhança. Não eram um casal nem parentes, mas as suas almas, certamente, eram gêmeas. Muito iguais no jeito de agirem.
Ninguém sabia como eles sabiam de tudo. Quando algum morador adoecia ou precisava de ajuda, eram os primeiros a chegar no local. Mariazinha levava um punhado de ervas para chá e um pouco de legumes para o preparo de uma sopa. Betinho chegava com uma braçada de couves e um galão de leite. Enquanto a amiga se encarregava dos afazeres domésticos, ele cuidava do terreiro. Dava um trato no matagal crescido e limpava tudo o que era necessário, além de consertar alguma cerca danificada ou banco quebrado.
Os dois ficavam na companhia dos vizinhos até o início da noite, iam embora somente quando estivessem confiantes de que a pessoa enferma já estava mais animada. Nas casas com filhos pequenos, Mariazinha era muito amorosa com eles e o Betinho, para distrair as criancinhas, fazia bonecos de sabugo de milho e flautas de bambu.
Esse gesto solidário se repetiu por anos. Mariazinha e Beto nunca se casaram e sequer namoraram na vida. O tempo se passou, os habitantes mais idosos das redondezas foram morrendo um a um. Essas duas figurinhas especiais não foram mais vistas. Os moradores bem antigos que restavam por lá, no alto dos seus setenta e muitos anos, até hoje têm dúvidas se os generosos eram mesmo humanos ou verdadeiros anjos.
Tema proposto pelo BVIW - "As figurinhas..."
(BVIW - BECOMING VERY IMPORTANTE WRITER/ "Tornando-se um escritor muito importante."